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10 de abril de 2007

Queria Ter Nos Meus Versos


queria ter nos meus versos
a água da chuva
ou a das lágrimas puras
como as do meu filho

e queria ver as folhas dos plátanos
caidas nos lados do caminho
como se tivesse todos os poemas em folhas
nos bolsos da minha bata

e tu poderias seguir ao meu lado
em silêncio, se quisesses
ou dizendo-me orvalhos

Modernidade


convoquem-se as palavras inibidas
tragam-se-lhes os nomes aos dias de hoje

é abrir os alçapões da memória
e relembrar outras palavras, desinibidas

o que ontem as soltava,
lhes dava possibilidades de asas de sonho?

se, na verdade, pouco mudou,
não deixaram aquelas de ser novas
palavras, futuro antecipado,
o desejo empurrando o pensamento.

Se queres ser moderno,
convoca à tua vida o desejo mais antigo

De Novo O Poema


nos afluentes das lágrimas
o encontro, o enlace,
de novo a partida,
a subida do amor

o choro da vida, o abraço,
de novo o poema,
de novo a estrada
dos abraços afluentes

num mesmo rio águas
que de novo seguem
mágoas que se lavam,
sedes que se levam

às fontes
do poema novo

De Uma Janela De S. Lázaro


( lembrando Cesário Verde )


Lisboa chovida,
bebidas as tuas calçadas,
deslizas nos trilhos dos teus eléctricos,
sorvendo salgada humidade
pelas narinas, mouras.

Lisboa deitada
- decúbito lateral de preguiça -
apoias nos braços a face
e aos olhos te ofereces
as ancas e as costas, nuas.

Lisboa marga de sabores,
de encostas dobradas,
fadadas de morrer chorando
alegrias e tristezas.

Leveza


Hoje, que me sinto mais leve,
mais seguro,
de mim, de ti, de nós;

Hoje, que me solto mais leve,
mais livre,
mais preso, a ti, a mim;

Hoje que me vejo
de novo
a soltar o sabor antigo
da poesia na ponta dos dedos

Perguntas


( a Eugénio de Andrade )


tenho a sangrar-me dos braços
as palavras que me atiro:
em que medida te suspendo
no tempo de me ouvires?

tenho caladas na boca
as perguntas que me faço:
em que palavra estou,
onde fiquei agarrado
às pedras do teu assombro?

tenho nas mãos
o papel com que me firo:
será o breve de um grito
o susto que me acorde?

Na Torre


Arriscamos o perigo
de se estar no risco
fazer aresta
tornar arisca
a verdade

o perigo
de estar nesta torre

livre
nesta cidade
a muralha
de pedras brancas

o perigo arriscado
de estar arisco
e vivo.

Retorno


Mergulhado em teus braços
trago-te o beijo
leve dos meus dedos.

mergulhado em teus lábios
tens-me a romper
o fogo da tua boca.

mergulhado em teu corpo
acendo-te o ventre
de manhãs claras.

Nós


Tu e eu
duas papoilas matinais
festejadas em sabor do nosso espanto

tu e eu
amados em espuma
largámos as águas da nossa espera

tu e eu
nos claros dias
ardemos em brilho de fogos

tu és a rapariga
o trigo
a mulher do meu canto companheiro

tu és o meu peito
o meu grito
o amor do meu braço verdadeiro

Corpos


Teu corpo é arco
na ponta dos meus dedos
três leves polpas
na flor da minha mão
com que inflamo a manhã
no teu ventre.

mergulhado
nos teus braços
envolto em lábios,
em perfume.

em beijos,
na água do teu pescoço
brando de rosas
nos bicos doces
no peito leve.

Quando somos amor
nossos corpos são arcos

Todos Os Dias


Quero fazer-te um poema
que seja como eu te vejo
todos os dias

que seja como fazer-te crescer
com o meu amor
todos os dias
que seja como fazer-te um filho,
fazer amor
todos os dias

que seja como eu te faço
meu amor
todos os dias
que seja como o que me faço
por ti, meu amor
melhor,
todos os dias

eu só queria fazer um poema:

este amor

todos os dias.

Poema Da Oferta E Da Procura


poesia
é inutilidade,
imaterialidade pura

preciosa pedra
em todos os mercados perseguida

pontiaguda ou polida,
oferta sempre negada
a cada poeta que a procura

9 de abril de 2007

Ruas Calmas


Desfiando em teus segredos
levanto a sede e a sombra
percorro os fios da secura.

Invento todos os dias
o teu sorriso
oculto no ventre das tuas palavras.

Aprendo os ecos do teu silêncio
escondo os traços lentos
dos novelos abertos do meu medo

Abrimos ruas na tua pele
escuto a manhã do nosso encanto.

Levado na brisa solta
no beijo calmo dos teus cabelos.

Fuga


andar fugir espalhar a semente

criar as folhas, contornar as fugidias faces

levantar os braços erguidos no tempo

largar o fértil fulgor da anarquia,
deixar fluir na planície
dos homens as falas do entendimento.

fugir andar, espalhar a semente
purificar a água, na fonte e na face
formar a efígie perene

espalhar a corrente fugir
libertar de mim todas as palavras
retidas em perpétua sentença

Poema Devido


devido aos olhos ardentes
devido ao peso das pálpebras
devido aos declives

descendo penumbras
descendo às sombras
após o encantamento
crepuscular

deslizando colinas
relaxando músculos
tensões acumuladas

lembrando cantigas adormecidas
lembrando formigas fora do carreiro
esquecidas de seguir contrárias

de vidas furtivas fugas sentidas
dormentes raivas rangidas
entre dentes dormidas,
doridas

O Ponto Da Situação


Fazer hoje o ponto,
a chave da situação,
tanto quanto a sabemos
actual aberta ou livre,

ou queremos abrir todas as portas
da espera, a esfera da alegria
e da tristeza.

Soubemos contar
da situação real quando a cantar
os erros quisemos abrir os sonhos
- ambos necessários.

No ponto aberto das tensões
o titubear dos pulsos, das pulsões
os cuidados,
as canções

Teu Veludo


a qual pedra
sempre leve
branda pelve
no azeite liso dos dedos

firmes
graves sedas
pelas presas
das lentas pernas

a qual ponta
breve dura
das silvas
agudas

Opus Brevis


lentamente
em leves toques,
passo a passo
vou criando as tuas formas.

linha a linha
surgem os ciclos,
tocando-te as teclas
esculpindo o invisível.

guardando-te os sentidos
na tua maneira,
alegram-se os rostos
límpidos das crianças

A Visão De Vincent


como nenhuns, viram teus olhos
as metamorfoses no teu rosto marcado,
as cores de Auvers e as espirais da noite

ondulavam-te os olhos, trémulos,
pela terrível claridade das searas
e a tua mão em desesperada fuga
deslizava turbilhões coloridos

procuravas os contrastes da alma
e revias-te sempre espelhando-te
o olhar de amargor profundo

e como ninguém nos deste
- como só o teu único olhar poderia -
a ver os ciprestes ao vento
entre o deslumbramento solitários

como homens a sofrer, resistindo
à vida de pé, verticais e delicados,
solenes e agitados.

como um cipreste ondulante
foi a tua vida
a vertigem do teu olhar

A Tua Idade


tens o olhar lento e silente
com que nos fitas, de sageza
sabes que o mundo não inverte
os ciclos da natureza

apenas resistes ao tempo
e guardas a memória
as vozes mudas dos anos passados
e sabes esperar
que te venham pedir os tesouros
do futuro

parado no teu banco nos fitas
e de cima dos teus séculos
esfíngicamente respondes
"muito pouco seria
se eu inda agora
não achasse muito..."