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25 de dezembro de 2007

minutos...


Nos minutos que nos restam
nos não sobram ansiedades:
há vozes que não protestam,
e vão calando as maldades.

Muito ou pouco mal seria
se o tempo nos chegasse;
por não fazer o que devia
não ouvi quem se queixasse.

Curta ou breve seja, a demora,
que longa nos esmaga, de solidão.
Que tempo nos não sobre, ou sobra ilusão.

Que outros fiquem por terra
aprendendo porque se erra,
e que por pouco tempo se chora...

17 de novembro de 2007

EXPERIÊNCIA


Vinda em breve grandiloquência,
tão de súbito, mudou-me o céu:
tempos e fronteiras se mudaram,
mantendo-me da vida a aparência;

Surpreendido por tal evidência,
de súbito se abriu, o peito meu:
novas vozes, cantos me ecoaram,
alumiando memórias da vivência.

Deitada jaz por terra a fatal ciência
de quantos a ergueram estandarte;
já me cresce segura e livre, a Arte.

Erguendo nos ares o seu alto porte,
as cordas da alegria me vibrou, forte!
Eis o que me faltava, à experiência...

21 de outubro de 2007

Tivesse sido a história outra


Tivesse sido a história outra,
nos não teríamos conhecido;
tivesse sido a história outra...
outra a história teria sido!

Se aqui não entra LaPalisse;
tu e eu, noutros encontros,
mui diverso do que se disse
ouviríamos, noutros pontos...

Mutatis mutandis , meu amigo,
o que importa é o resultante
do que é fortuito e mutante.

Se pouco breve a vida fosse
e se tão farta nos soubesse,
glória nunca, e sim castigo!

8 de outubro de 2007

sombra


ainda tua voz não ouvi
vens vestida de palavras cultas

ainda tua voz não ouvi
sobre as pregas do cetim
caem teus negros cabelos
cheirando a nardo

ainda tua voz não ouvi
vens de palavras despida

6 de outubro de 2007

divino sopro


Cerrei meus estomas
e andei pelas batalhas
de carapaça armada.

O divino sopro em vão passou
por mim esbarrou,
não o acolhi no meu seio endurecido.

Oh - coração empedernido!
Oh - cerradas bocas de meu corpo!
Abri-vos para a seiva dos heróis!

Bebei a seiva de Ulisses,
o sangue dos gigantes nórdicos;
respirai a humidade dos pântanos celtas!

Vinde frio - de que não posso fugir, vinde!

Das batalhas de antanho,
dos ancestrais avós prodigiosos,
herdadas e continuadas, por vencer!

Vinde Divino Sopro,
que tenho agora abertos os estomas!

Não mais batalhas sem Paixão!
Dentro da armadura, o Coração!

3 de outubro de 2007

o sentido do retorno

como saber o sentido
que nos toma a vida
revolvida?

como saber o que nos torna
os sentidos revoltos,
se por voltar
nos revoltamos?

como vamos
por esta quando por outras
quiséramos seguir...
e regressamos sem sentido
da terra dos nossos sonhos...

8 de maio de 2007

Outras Claridades


Da minha vida,
ontem tão esquecida,
ficaram meus sonhos antigos
no fundo de gavetas guardados;
é deles que hoje falo, aos amigos:
de estórias e tempos apagados,
de amarelos papéis que rasguei,
de fantasias que nunca viverei...

N'outros sonhos, outras novidades,
dançarei ao som de novas melodias.
Como ontem, sonharei outras claridades:
hoje saltaram da memória os novos dias!

21 de abril de 2007

Anos "60"


Era o mundo dos meus verdes anos
em que tinha a cabeça adolescente
despenteada, externa e internamente.
Naqueles tempos não havia veteranos...

Encheu-se de música o meu mundo:
de sonhos musicais a minha cabeça
penteou-se com um risco profundo.
Marcas ficaram, ninguém se esqueça!

Hoje, alguém passa e questiona
esses valores e o seu significado,
duvidando se na História ficou brado.

Tirando o alecrim e a mangerona
das tais politicalhas prepotentes,
foram os sessenta dos mais inteligentes!

Voz Minha


Oh! Voz minha não te cales,
pelo ardor do meu coração!
Que sejas Lança, sempre fales
- que me ilumines a escuridão!

De volta ao tempo clandestino,
voltou a "apagada e vil tristeza";
resta-me só a Lança da Pureza:
este puro coração de menino...

Já que a chama se apagou,
nesta jornada discreto vou,
e sigo à sombra dos anões...

Ficando nas trevas os dias,
fúteis vaidades e honrarias,
chegue a Lança aos corações!

O Silêncio Da Razão


A Razão resistindo, a sair
da ponta da caneta, do tinteiro,
guardada pelos anos, em silêncio,
clausurando erudições,
inibindo erupções...

A Razão, sempre A Razão,
aquela que nos disse não,
sempre em silêncio, calada,
mordendo-nos a alma por nada,
em tudo o que o fogo urgia...

Oh! mas se a vida se fazia
com vozes e fogo se ardia
deixando sozinha falando
lá dentro a Razão ignorando...

...com gosto Ela se calava
- e satisfeita se calou,
por todos anos em que amou
enquanto quieta ficava!...

20 de abril de 2007

O Que Sou?


o que sou
e o que faço
onde estou
e o que penso

tudo o que nas mãos reúno
que digas pouco o que apresento
seja porque o esparso pelo vento
ou que dissolvo nas águas em que o afundo

pouco ou muito
seja eu louco
cheio de amor e razão

faça amor, faça loucuras
tanto faça
que não haja taça!

18 de abril de 2007

Condição De Bardo


junto a bravura na luta
de um coração celta
em peito de gaivota
à doçura de um homem do sul
na paixão pela sua amada...

entre a rudeza do sangue
e a brandura do amor,
a minha condição de contrárias forças
me conduz por caminhos, ermos...

de montes e pedras,
sobre vales e rios,
sob sopradas nuvens
de molhados gelos
ou repentinos frios...

e se faço uma pausa na caminhada
é para ouvir o silvo do vento;

porque Ele é como a música
que me penteia os neurónios,
e é ela que me diz
para onde devo seguir.

12 de abril de 2007

O Que De Livre Resiste?


O que de livre resiste,
sendo livre por inteiro,
neste Mundo que desiste
de ser justo e verdadeiro?

O que de puro nos resta,
muito pouco já sobeja;
n'outra Vida - que não nesta -
um pouco mais, se deseja.

Vamos assim resistindo,
assim cá vamos fugindo
da nossa própria Razão.

Vivendo sem a Verdade,
em ilusão de liberdade,
que nos salve o Coração!

esperanças...


No tempo em que os Caprandandas
andavam sempre em bolandas,
de terra em terra procurando
e ao Eldorado nunca chegando...

Num tempo já tão distante
vivia meu coração ofegante,
cruzando mares sem espanto,
sem estrela Polar nem manto...

Vidas de antanho, que o não foram
- que neste desenho não moram:
em funda tristeza morreram.

Por mortes se foram, tornadas
em fortes vidas renovadas,
esperanças novas nasceram!

11 de abril de 2007

Meio


Meio não é boa palavra.
O esteio da minha lavra
não devia tê-la...
...de permeio!
(Acho que vou devolvê-la,
com muito asseio...)

Sinto que é feio,
anti-poético,
patético,
e até creio
ser termo meio... presumido,
em futurologias convencido,
pois que ao se terminar
o Fim virá anunciar!

Isso é chantagem, eu acho!
O Meio, assim? Abaixo!

Se Me Aperta A Alma


Se me aperta a alma
se a voz me falta
se não tenho calma...

Breve, o meu peito, para tanto;
curto, o meu passo, de espanto;
longo e deserto, o meu pranto...

voz que me falta,
voz que me aperta;

que se desdobre o peito,
que lhe descubra o jeito!

Princípio


Quando meia vida se gastou
para saber o coração por onde andou:
do corpo saído,
afastado da razão
- da vida dos passos -
ao lado dos lados perdidos;

encontrados os sentidos
de tantas vidas
de tanta imaginação,
agora sabido onde se ancora,
onde ele mora
(o meu estranho coração...);

começa o encontro,
o conhecimento;
dos corpos e da mente,
do espírito e da razão;

começo Eu,
acabando com a separação!

Noite Pessoana


preso a estas lamas,
a estas cinzas de império
roto e decadente

às vilezas verdes
de um hálito podre
e execrável;

neste final de noite
me arrasto
acabado quase
acabando por nunca me completar

Sonha


a medida
das coisas, dos olhares,
deixados sobre magoados passados,
venenos, amarguras perenes,
ódios mesquinhos,
desmedidos...

sob a medida
de todas as coisas, por amares,
optados sobre rasgados passados,
no fel dos dias sem grandeza,
da mente pequena
enfrentando a frieza;

pela medida
supra todas as coisas,
o Amor de te encontrares
Livre, do fel, da peçonha,
sonha, sonha, sonha!

Peça


ser uma peça do sistema

da máquina trituradora

ainda resta alguma consciência

ainda nos resta

entre o ruído, o resto das mãos

o gesto do afago, sobre imagens

de rostos, pétalas de rosas

nos cartazes

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