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18 de abril de 2007

Para Parte Incerta


Encobre-se o céu, por vezes, de negrumes;
levantando brumas, queixumes...

Descobre-se a Vida,
escapa-se-nos o vento,
o sopro, neste barro cinzento...

O que nos prenderia aos braços
do embondeiro forte
se as raízes largas
da vida se soltam
pelo espaço incerto?

11 de abril de 2007

De Sangue E Carne


de sangue e carne
são feitos os meus versos;

não julgues que de ofício
fingidor os imagino;

sofrimento, sem artifício,
lágrimas perdidas,
em silêncio
explodido

e se venho aqui chorar,
é porque nenhum ombro ali fora me aguarda...

por isso, meu amigo, deixa-me sair,
correr ao meu amado deserto e gritar

10 de abril de 2007

Se Tu Quisesses


se me quiseres procurar
não vás à cidade perdida,
lá andam muitos, perdidos,
em multidão, mas eu não;
lá não me encontrarias...

se me quisesses encontrar,
procurarias onde andasses
também perdida, sem norte,
como eu, à sorte,
dos dias sem sentido...

sentirias como eu,
seguirias sem destino,
procurando-me,
encontrarias.

Não Calarei


Não calarei o asco
pela peçonha de tamanho visco.

É tal a façanha, tal a manha,
que a náusea e o nojo
deste País fez um despojo,
envenena o ar,
a água e o pão,
a língua e o coração.

Não calarei, não calarei!

Exortação À Coragem


que as lentas forças
macias, crescidas
nos caulinos argilosos

em doces branduras,
à sombra de brisas calmas

de tanta calma
tanta maresia aspirada
à beira de falésias

de tanta hesitação
tanta espera inacabada,
que seja agora a hora
em que venha o trovão
e que ele fale

que tudo rebente
e não se cale, que tudo se lave
com o que tanto chova
e que com o imenso vento
ninguém se atreva,
ninguém se mova!

Que acabe a treva, que acabe a treva!

Manhã


Saio para a manhã e bebo o ar
fresco, vivo, leve
caminho sobre os passos;

alimento-me de asas,
aspiro a pureza;

levo vida nos olhos,
na alma;

vôo, devagar,
sorvendo as brisas,
bebendo as águas
em que respiro.

Tentação


Deitada estavas em repouso,
reluzente em tua pele de ébano.

Enovelaram-se ideias
na tua imagem;
deixando teu corpo
intocado.

Sem suspeita da minha tentação,
teu sono segue puro.

Também eu sigo,
livre de impuras ideias...

Quando?


quando,
como num tango,
me lo haces...
me da ganas
de trair-te!...

quando,
como num tango,
golpeas mi alma
hasta la sangre...
me da ganas
de llorar...

quando,
como num tango,
me lo dices...
me quedo triste...

amor, quando
lo tango bailaremos ?

Sempre No Final


sempre no final,
adiado,
das caminhadas,
sempre no terminal
de longas estradas,
sempre arrastando penas
e cansaços arrastados
nos poucos passos
que tão poucos, afinal,
foram dados,
nesta viagem,
de jornadas sem sentido,
que destino seguimos
meu Deus, que fim?

Ai!


ai!

que em meu socorro
as musas corram!

que as palavras me bastem
ao consolo...

(que viessem
aos cabelos em desalinho,
ao magoado peito,
às pesadas pernas,
já sem jeito...)

afogam-me as mágoas,
esbracejo em desespero;

acudi-me, poesia -
levai-me nas tuas asas!

Nos Restos Desta Noite


nos restos desta noite,
no princípio da manhã,
queria ver o alvor
do teu desejo
sobre o meu
banal corpo
derramar-se
como um líquido nascente

Ventos Do Norte


ventos do norte
a esta praia me trouxeram

pelos séculos
sobre esta falésia polida
olho para o mar, para ti

ondas sobre ondas,
dobrando-se em verdes,
em espumas e brilhos

em maresias por ti
os meus olhos
e este coração pisado
ouvindo o mar calmo...

estás presente,
mas é ao mar que pergunto
qual é o nosso caminho

...

respondeu-me o vento
que o mar lhe dissera
seguissemos o caminho
do nosso amor

Ainda Sobre...


Ainda sobre todos os amores,
ainda sobre todas as vidas,
sobre o mundo dos amores,
sobre amar, ter despedidas:

Venham poetas, venham sábios,
venham os doutores de vidas,
escritores, profetas, visionários
(fossem as mentes tão sabidas...).

Que nas pedras se sentem,
que nelas fiquem, sentados:
suportando a monotonia;

amando o silêncio, fiquem,
ficando na ausência, parados:
esperando a Sabedoria...

Amor, Estranha Palavra


tanto nos disse
o primeiro ar ao nascer

tanto nos disse o colo,
as mãos da mãe;

tanto falou o chão às nossas,
mãos gatinhando, antes dos pés
sentindo, os torrões
ou planos alisados

tanto nos disseram
bancos de várias cores,
formas e densidades;

tanto as paredes
esfolando os dedos nos disseram

tanto os muros
aos joelhos nos falaram

tanto as pedras dos caminhos
aos dedos dos pés doeram...

Sobre o Amor,
essa estranha palavra,
tudo nos disse a Vida.

Shopping Center


Chorei os meus verdes anos:
e se era livre então;
a vida, como a poesia.

Nas ruas, como se cantava!

Cantaram os pobres,
ricos de flores, de canções;
novas flores apanhadas.

Quantas vendas foram nossas?

Hoje, de novo são tristes
as ruas, as casas
cinzentas de todas as cores.

Fragilidades


Hoje revi-te naquele filme antigo;
com um baque no coração,
vi-te, de novo menina, delicada, linda.

Desses tempos da nossa vida,
imagens como leves marcas sobre a areia,
que as secas, as chuvas e os ventos
afinal não chegaram para apagar...

Tão distantes,
desligadas da memória,
simultaneamente doces e penosas;

Se pelas imagens soubéssemos o que os dois éramos,
antes da vida sobre nós ter desabado,
em cujo percurso a memória se esqueceu...

Tão frágeis éramos, na nossa mocidade;
tão náufragos naquele mundo, já perdidos,
nas ilusões em que sonhávamos partir,
já no dia seguinte.

Em que momento, e porquê, os nossos doces olhares
ter-se-ão perdido pelos caminhos?

Ou apenas, por momentos dilatados,
ocupados, não por doçuras, mas por fados,
por quanto tempo nossos olhares terão seguido outros caminhos,
perdidos um do outro?

Éramos frágeis. A nossa pureza foi frágil.
Hoje, não sei como chamar a esta nossa força de amar.

Mas, depois de endurecido pelos anos,
ao rever o teu lindo rosto,
sorrindo para mim,
como ainda me sinto frágil!

Como ainda sinto a paixão,
como ainda sinto
que outra não poderia ter sido a minha vida!