das nuvens por vezes nos vem a divina água da inspiração, em fumos se foram ardores da vida - que alguns chamem a estes desencontros poesia...
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12 de abril de 2007
10 de abril de 2007
Queria Ter Nos Meus Versos
queria ter nos meus versos
a água da chuva
ou a das lágrimas puras
como as do meu filho
e queria ver as folhas dos plátanos
caidas nos lados do caminho
como se tivesse todos os poemas em folhas
nos bolsos da minha bata
e tu poderias seguir ao meu lado
em silêncio, se quisesses
ou dizendo-me orvalhos
Modernidade
convoquem-se as palavras inibidas
tragam-se-lhes os nomes aos dias de hoje
é abrir os alçapões da memória
e relembrar outras palavras, desinibidas
o que ontem as soltava,
lhes dava possibilidades de asas de sonho?
se, na verdade, pouco mudou,
não deixaram aquelas de ser novas
palavras, futuro antecipado,
o desejo empurrando o pensamento.
Se queres ser moderno,
convoca à tua vida o desejo mais antigo
9 de abril de 2007
( a Vieira da Silva )
a resposta necessária procurei-a
na clara massa líquida do largo rio,
sobre o mar obscuro e inquieto,
sobre ansiosas ondas,
como eu sôfregas de verdade.
( estavam prontas a medir forças
submergindo rochas de desprezo
ou submetendo-se em espumas )
nesse lento desfiar de esculturas vivas,
ao longe uma réstea de luz
o som fino de flauta, longa sobre a costa,
em brilho de oiro antigo,
espantoso brilho.
súbitos tons de verde das águas,
em mágoa eloquente, silêncio enrouquecido,
ferindo os sentidos e os pensares.
( mundos paralelos, insuspeitos e estanques,
de hermética linguagem... )
trama de cabos e mastros, traços fortes
rodeados desse azul, deste verde,
profundidades em solene silêncio.
naquelas telas plenas de líquidos vapores,
onde no mar se confundem águas e nuvens,
claridades, esbatidos abertos,
fruindo olhares e respirações,
exalando os sons
de encantatórios mistérios
já não posso
ser contente já não posso
se traído me quedo triste
como perdido e sem norte;
resta-me o ser forte
que na amargura se ancora
ser contente já não posso
antes bravio e amargo
por revolta da traição:
de trazer nos braços a entrega
e receber migalhas de pão
ser amigo já me doi
antes distante dos enganos;
antes resistente neste mundo
que diferente do que sou,
ser contente já não posso
A Visão De Vincent
como nenhuns, viram teus olhos
as metamorfoses no teu rosto marcado,
as cores de Auvers e as espirais da noite
ondulavam-te os olhos, trémulos,
pela terrível claridade das searas
e a tua mão em desesperada fuga
deslizava turbilhões coloridos
procuravas os contrastes da alma
e revias-te sempre espelhando-te
o olhar de amargor profundo
e como ninguém nos deste
- como só o teu único olhar poderia -
a ver os ciprestes ao vento
entre o deslumbramento solitários
como homens a sofrer, resistindo
à vida de pé, verticais e delicados,
solenes e agitados.
como um cipreste ondulante
foi a tua vida
a vertigem do teu olhar
A Tua Idade
tens o olhar lento e silente
com que nos fitas, de sageza
sabes que o mundo não inverte
os ciclos da natureza
apenas resistes ao tempo
e guardas a memória
as vozes mudas dos anos passados
e sabes esperar
que te venham pedir os tesouros
do futuro
parado no teu banco nos fitas
e de cima dos teus séculos
esfíngicamente respondes
"muito pouco seria
se eu inda agora
não achasse muito..."
Talvez Depois De Dormir
deixai fugir de mim os olhos
deixá-los dormir, vaguear, levando pelo espaço
as formas obscuras do silêncio
talvez depois regressem mais claros
mais seguros de trazerem sentido
para todas as coisas que ainda ontem viram
tragam a chave oculta dos mistérios
a chave do enigma
que os olhos não entendem,
em que o pensamento esbarra
trazendo a zanga,
e a vontade de fechar para balanço
ou para obras
Descartes E O Erro
à beira
no bordo da fronteira,
no limite da coragem;
à margem.
ao lado, no brado
do tempo que passa,
do pão que se amassa,
na força que se não usa,
imensa, arde a brasa
em lenta queima.
no risco,
de seda e aço
respiro e penso
no cheiro da manhã
e no canto arrisco
a rupestre palavra.
Viagem
(a Miguel Torga)
águas tépidas, claras areias
praias límpidas, de clara luz
cálidas chuvas de alegria
formas fúlgidas, breves
surgidas ao sair das pontes,
ao dobrar da curva,
fontes frígidas da serra
frescas sombras dos bosques
de maduros olores plenas,
brisas vindas do viço
das folhas dos ramos novos
ou em vôo suave de folha solta
em viagem
até que no chão da terra pouse
e o eterno sol aqueça
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