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11 de abril de 2007

Se Me Aperta A Alma


Se me aperta a alma
se a voz me falta
se não tenho calma...

Breve, o meu peito, para tanto;
curto, o meu passo, de espanto;
longo e deserto, o meu pranto...

voz que me falta,
voz que me aperta;

que se desdobre o peito,
que lhe descubra o jeito!

Princípio


Quando meia vida se gastou
para saber o coração por onde andou:
do corpo saído,
afastado da razão
- da vida dos passos -
ao lado dos lados perdidos;

encontrados os sentidos
de tantas vidas
de tanta imaginação,
agora sabido onde se ancora,
onde ele mora
(o meu estranho coração...);

começa o encontro,
o conhecimento;
dos corpos e da mente,
do espírito e da razão;

começo Eu,
acabando com a separação!

Noite Pessoana


preso a estas lamas,
a estas cinzas de império
roto e decadente

às vilezas verdes
de um hálito podre
e execrável;

neste final de noite
me arrasto
acabado quase
acabando por nunca me completar

Sonha


a medida
das coisas, dos olhares,
deixados sobre magoados passados,
venenos, amarguras perenes,
ódios mesquinhos,
desmedidos...

sob a medida
de todas as coisas, por amares,
optados sobre rasgados passados,
no fel dos dias sem grandeza,
da mente pequena
enfrentando a frieza;

pela medida
supra todas as coisas,
o Amor de te encontrares
Livre, do fel, da peçonha,
sonha, sonha, sonha!

Peça


ser uma peça do sistema

da máquina trituradora

ainda resta alguma consciência

ainda nos resta

entre o ruído, o resto das mãos

o gesto do afago, sobre imagens

de rostos, pétalas de rosas

nos cartazes

da publicidade

Dissociação Sentimental


Recordo os tempos em que tocava o teu manto de pétalas frágeis
- então falávamos pelos poros e pelos dedos,
então tudo em nós era linguagem de amor;

Algo na ferrugem do tempo se passou
- talvez as nossas vozes oxidando,
transformando doçuras em timbres metálicos;

Não mais ouviste as cordas do meu violão
gemendo, a guitarra do meu sangue,
ignorada a lira, silenciada de tristeza...

Hoje, minha latejante e cheirosa nudez
passa pelos teus implacáveis olhos,
indiferentes à chama...

Distante dos teus ouvidos,
esgueiro-me por brechas de azedume,
procuro lançar por tortuosas vias
de outros pavilhões auriculares
esta voz que se deixou perder em sussurros...

Já não mais síncronos, aurículas e ventrículos,
antes apenas dissonantes,
depois agora já bloqueados,
oh! - os corações - dissociados...

De Sangue E Carne


de sangue e carne
são feitos os meus versos;

não julgues que de ofício
fingidor os imagino;

sofrimento, sem artifício,
lágrimas perdidas,
em silêncio
explodido

e se venho aqui chorar,
é porque nenhum ombro ali fora me aguarda...

por isso, meu amigo, deixa-me sair,
correr ao meu amado deserto e gritar

10 de abril de 2007

Se Tu Quisesses


se me quiseres procurar
não vás à cidade perdida,
lá andam muitos, perdidos,
em multidão, mas eu não;
lá não me encontrarias...

se me quisesses encontrar,
procurarias onde andasses
também perdida, sem norte,
como eu, à sorte,
dos dias sem sentido...

sentirias como eu,
seguirias sem destino,
procurando-me,
encontrarias.

Não Calarei


Não calarei o asco
pela peçonha de tamanho visco.

É tal a façanha, tal a manha,
que a náusea e o nojo
deste País fez um despojo,
envenena o ar,
a água e o pão,
a língua e o coração.

Não calarei, não calarei!

Exortação À Coragem


que as lentas forças
macias, crescidas
nos caulinos argilosos

em doces branduras,
à sombra de brisas calmas

de tanta calma
tanta maresia aspirada
à beira de falésias

de tanta hesitação
tanta espera inacabada,
que seja agora a hora
em que venha o trovão
e que ele fale

que tudo rebente
e não se cale, que tudo se lave
com o que tanto chova
e que com o imenso vento
ninguém se atreva,
ninguém se mova!

Que acabe a treva, que acabe a treva!

Manhã


Saio para a manhã e bebo o ar
fresco, vivo, leve
caminho sobre os passos;

alimento-me de asas,
aspiro a pureza;

levo vida nos olhos,
na alma;

vôo, devagar,
sorvendo as brisas,
bebendo as águas
em que respiro.

Tentação


Deitada estavas em repouso,
reluzente em tua pele de ébano.

Enovelaram-se ideias
na tua imagem;
deixando teu corpo
intocado.

Sem suspeita da minha tentação,
teu sono segue puro.

Também eu sigo,
livre de impuras ideias...

Quando?


quando,
como num tango,
me lo haces...
me da ganas
de trair-te!...

quando,
como num tango,
golpeas mi alma
hasta la sangre...
me da ganas
de llorar...

quando,
como num tango,
me lo dices...
me quedo triste...

amor, quando
lo tango bailaremos ?

Sempre No Final


sempre no final,
adiado,
das caminhadas,
sempre no terminal
de longas estradas,
sempre arrastando penas
e cansaços arrastados
nos poucos passos
que tão poucos, afinal,
foram dados,
nesta viagem,
de jornadas sem sentido,
que destino seguimos
meu Deus, que fim?

Ai!


ai!

que em meu socorro
as musas corram!

que as palavras me bastem
ao consolo...

(que viessem
aos cabelos em desalinho,
ao magoado peito,
às pesadas pernas,
já sem jeito...)

afogam-me as mágoas,
esbracejo em desespero;

acudi-me, poesia -
levai-me nas tuas asas!

Nos Restos Desta Noite


nos restos desta noite,
no princípio da manhã,
queria ver o alvor
do teu desejo
sobre o meu
banal corpo
derramar-se
como um líquido nascente

Ventos Do Norte


ventos do norte
a esta praia me trouxeram

pelos séculos
sobre esta falésia polida
olho para o mar, para ti

ondas sobre ondas,
dobrando-se em verdes,
em espumas e brilhos

em maresias por ti
os meus olhos
e este coração pisado
ouvindo o mar calmo...

estás presente,
mas é ao mar que pergunto
qual é o nosso caminho

...

respondeu-me o vento
que o mar lhe dissera
seguissemos o caminho
do nosso amor

Ainda Sobre...


Ainda sobre todos os amores,
ainda sobre todas as vidas,
sobre o mundo dos amores,
sobre amar, ter despedidas:

Venham poetas, venham sábios,
venham os doutores de vidas,
escritores, profetas, visionários
(fossem as mentes tão sabidas...).

Que nas pedras se sentem,
que nelas fiquem, sentados:
suportando a monotonia;

amando o silêncio, fiquem,
ficando na ausência, parados:
esperando a Sabedoria...

Amor, Estranha Palavra


tanto nos disse
o primeiro ar ao nascer

tanto nos disse o colo,
as mãos da mãe;

tanto falou o chão às nossas,
mãos gatinhando, antes dos pés
sentindo, os torrões
ou planos alisados

tanto nos disseram
bancos de várias cores,
formas e densidades;

tanto as paredes
esfolando os dedos nos disseram

tanto os muros
aos joelhos nos falaram

tanto as pedras dos caminhos
aos dedos dos pés doeram...

Sobre o Amor,
essa estranha palavra,
tudo nos disse a Vida.

Shopping Center


Chorei os meus verdes anos:
e se era livre então;
a vida, como a poesia.

Nas ruas, como se cantava!

Cantaram os pobres,
ricos de flores, de canções;
novas flores apanhadas.

Quantas vendas foram nossas?

Hoje, de novo são tristes
as ruas, as casas
cinzentas de todas as cores.