das nuvens por vezes nos vem a divina água da inspiração, em fumos se foram ardores da vida - que alguns chamem a estes desencontros poesia...
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13 de abril de 2007
dúvidas
Se deixasses o sonho
correr ao longo das ruas,
Se soltasses a corrente
das águas
pelas nossas dúvidas.
Por que não?
(Diria eu),
Diria.
Manifesto
é preciso que saibas
que de nada nos serve
lançar o grito no vácuo
do vento vazio.
levantar na poeira densa
das nuvens ocas
as palavras descaídas.
por outro lado podemos
gritar serenos e atirar
calados as pedras polidas.
é preciso que eu saiba
também romper as cadeias
do silêncio de ontem.
Genesis
...e começar
arrancando da vida
a vida.
começar a rasgar
os pedaços das velhas
correntes,
e lançar pelo espaço
à volta só ida,
o abraço solto
da vida.
apagar os traços
reunir as palavras
traçadas.
a palavra de aço
o traço
sem volta.
apagar aqui os sulcos
pisados,
terminar aqui
a pré-história.
Debater
se te soltas
os braços cruzados
folgarei a sede
dos teus sulcos
debatidos.
ter-me-ás
seladas as feridas,
fendidas as folhas
do muro desespero.
10 de abril de 2007
Perguntas
( a Eugénio de Andrade )
tenho a sangrar-me dos braços
as palavras que me atiro:
em que medida te suspendo
no tempo de me ouvires?
tenho caladas na boca
as perguntas que me faço:
em que palavra estou,
onde fiquei agarrado
às pedras do teu assombro?
tenho nas mãos
o papel com que me firo:
será o breve de um grito
o susto que me acorde?
Retorno
Mergulhado em teus braços
trago-te o beijo
leve dos meus dedos.
mergulhado em teus lábios
tens-me a romper
o fogo da tua boca.
mergulhado em teu corpo
acendo-te o ventre
de manhãs claras.
9 de abril de 2007
Teu Veludo
a qual pedra
sempre leve
branda pelve
no azeite liso dos dedos
firmes
graves sedas
pelas presas
das lentas pernas
a qual ponta
breve dura
das silvas
agudas
Opus Brevis
lentamente
em leves toques,
passo a passo
vou criando as tuas formas.
linha a linha
surgem os ciclos,
tocando-te as teclas
esculpindo o invisível.
guardando-te os sentidos
na tua maneira,
alegram-se os rostos
límpidos das crianças
hoje nasceu o dia
hoje nasceu o dia
da aresta implacável.
rasgou-se
o manto verde
da placidez,
para crescer o fruto verdadeiro
no ser indeterminado
das árvores livres.
Tu aceitaste
ferir o canto.
um dia
um dia
acendemos a seiva rude
dos nossos peitos marcados
e deixámos a raiva à solta
arder em agulhas de fogo.
um dia
ferimos as cordas podres
e desfizemos os fios agudos
do fel em brasa.
foi assim que um dia
firmámos os passos certos
e abrimos as portas do canto
dedilhando nas vozes
as asas rubras da vitória.
conjugo em ti
conjugo em ti
todos os tempos
todos os verbos,
os versos de cada dia.
em ti
todos os dias
momentos de procura,
momentos de vontade
que em ti o encontro
comece.
em ti todos os dias
conjugo, no presente,
o verbo da vida.
reviramos aos poucos
reviramos aos poucos
estas cascas secas
para que a vida dos sedentos
alcance os plenos gritos
e as crinas ao vento revirem
de novo as cascas velhas.
neste espírito,
assim vamos matando o velho,
fazendo nascer dele vitorioso o fogo.
reunir cada fio
ligar as esperanças
a vontade destas forças
de cada um as alavancas por todos.
esta rede a estender-nos
semeando os novos sopros de aurora
este sol da nova brisa.
assim dirigimos estes peitos
as frontes dos ramos verdes
da nossa luta vermelha.
sei
sei
que primeiro
antes de nós
foi o nosso canto claro
entregue a si no escuro.
sei
que primeiro
antes de nós
e do nosso espanto arregalado
foi uma luz gritada em vitória
do fundo das nossas vozes trémulas.
sei o desejo encontrado
na calma dos teus dedos.
sabemos hoje
a paz de um rio largo
caminhando ao lado
da nossa vontade.
sei que agora
a nossa certeza voa
por todos os sonhos,
ainda que os ergamos imperfeitos;
e que haverá daí sempre a força
de termos sempre o passo seguro
de seguir avante.
este é o nosso fogo
este é o nosso fogo que nos vem, agora.
esta seiva nova, respirada.
a nós, habitantes deste rio -
desta terra nossa, antiga de sempre.
são estes ventos cantados
este viver novo de nos darmos
de sermos povo,
criarmos.
nós, os da frente,
sabemos da certeza que nos corre.
é aqui a nossa força.
no meio destas casas,
pelas terras deste país todo.
por isso
ao lado destes muros
avançamos o que é novo.
viemos no começo das coisas
viemos no começo das coisas
de um pássaro feliz
da vida dentro do peito
e juntos começámos.
trazíamos nas palavras
o peso dos enganos
de nos desencontrarmos.
mas fomos seguindo
na persistência dos dias amargos
nos conseguindo sempre.
hoje trazemos nas mãos
o nosso amor construido
com que nos trouxemos a nós próprios
com que nos damos à vida
com que nos levamos
às portas de nos encontrarmos.
levo-te nos meus dedos
na ponta dos meus desejos
a perseguir o inacabado
pele a pele
corpo a corpo dados,
a subirmos de mãos dadas
pelo tanger das nossas fibras.
hoje vou levar-te comigo
a respirarmos o sabor
de tudo o que somos.
aqui me dou
aqui me dou,
pelas mãos,
a este fogo lento
de centelhas vivas.
e este é o meu silêncio
feito de coisas simples
o silêncio de dizer-te
"- aqui me tens..."
que as fogueiras que em ti ateio
no meu trajecto errante
sejam fogo vivo,
nos libertem as asas
e descubram as margens
do nosso espanto calmo.
aqui nos temos
no silêncio
das coisas simples
de sermos o que aprendemos.
hoje sei o quanto pode
hoje sei o quanto pode
a fala dorida
arrancada da vacilação;
uma voz aberta para fora,
a mágoa de um violino
mergulhado de amor em ti.
hoje sei como foi fundo
a minha força
esta verdade agreste de ser menino,
como te vibraram as palavras
difíceis de passar o nó na garganta,
como te laborei em meu agir
com as cordas do desespero paciente
tocando-te a face
todos os dias;
hoje sei como é forte
esta força levantada
no cerrar decidido dos punhos.
hoje sei quanto mudámos
neste empenho de ser certo
quantas cordas em ti vibrei
nos meus dedos,
como em quantas vozes
fiz presente o teu canto.
são estas as mãos
são estas as mãos
que nos deram
sem querermos.
são estas
que têm de morder
os alicerces da cidade podre,
são estas mãos
sujas que têm de cuspir
o amanhã.
são para matar, estas mãos
assassinas de quem as pariu
mas são as únicas que temos.
há de ser com estas mesmas
que faremos as nossas
verdadeiras.
meu amor
meu amor
meu poema
só sei fazer-te simples
como a cor dos teus cabelos
só sei falar-te como se te desse a mão
disse-te um dia
estás dentro de mim
como um irmão grande
com quem falo
agora
sei que me trazes
dentro de ti
como um filho
é neste agora, hoje
é neste agora, hoje
em que nascemos
que aqui se traça o depois,
o novo sentido das coisas
deste aqui de ontem.
e diremos dia-a-dia
mais uma vez duas vezes
a quem nos venha
e chegue ao encontro da fala
as palavras que nos seguem:
o que não dobra,
quebrá-lo-emos.
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