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13 de abril de 2007

No País Das Trepadeiras


a casca da crosta a capa da côdea
o envólucro da embalagem a superfície
da aparência parecem o que aparecem
(mas o que importa é o miolo)

a armadura da muralha; o escudo
da parede, muro feito carapaça;
os chifres do capacete as unhas
do cassetete garras e dentes
eles dizem "defesas do essencial"

a espada-canhão a lança-foguete
o punho-granada - armas do medo.

da "protecção" à agressão
da "defesa" ao ataque é um passo.

o que trepa no trono tem a trela na tropa
tem um trajo tribal e uma tromba trocista.
Além disso, uma trama de tretas um traste de tricas
um truque de trocos um trote de tripas.

Enfim,
é um trapo, é um treco, é uma trampa.

Tragicomédia


Cardumes de ovelhas
Bandos de peixes mascarados
Cáfilas de lobos disfarçados
Alcateias de dentes de cera

(estava eu acordado e observava estes brutos)

macacos imitam macacos
uns de "smoking", outros de fraque,
manobram cordéis dourados e cartolas com macacos;
e os bolsos dos símios fraques não têm fundo;
e as bolsas dos simples fracos não têm fundos.

(quando os fracos forem fortes que acontecerá aos macacos?)

e assim, convencidos os Doutores - estatísticamente, claro! -
de ser o cérebro inútil apêndice,
os encéfalos, depois de extirpados por Eminentes Cirurgiões,
foram numerados e arquivados. Tudo o que resta
do primitivo "homo stupidens" são ocas
cabeças com chapas de matrícula.

E reina em todo o País
a mais plena ecologia das carcaças.

A Bem da Nação.

Terra De Ninguém


estradas corridas sem tempo de vida
criadas a ferro estradas da morte

estados de plasma em cristal amarelo
imagens falhadas numa estupidez pensante

fios de aço telhas de pedra
terra de pó sabor a sal pregos a mais

barcos à vela na areia
dos desertos escravos do vidro

tinta da boca língua de barro
dentes de osso pés de camelo

Oh! Oboés de papel
sois pontos de exclamação.

Ainda Guernica


Na geométrica lógica das facas,
no apenas blindado mundo,
aperta-se o cerco ao vigiado espaço
pelas pontas de águia, pelo aço
de estrelas-não-estrelas
estradas sinistras e faixas
de sangue em riso atroz
de metralha;

Há fogo que enlouquece
há labaredas sangrando
carvão de carne afogada
em petróleo, em armamento,
no furacão das marés de chumbo.

Havemos, como quem tem mil cabeças,
de inventar a coragem, a couraça
de agir agora gritar
as não-palavras sufocadas teimar, querer:
existir em liberdade
dizer sim ao projecto,
não ter paredes nem tecto
nem chão nem muros nem fundo,
crescer.