Oh inefável substância,
da angústia vil matéria
- que abundante degluto,
ficando-me a sede, que não mato.
Oh incansável errância,
imperturbável fêmea:
quanto de ti me sustenta
no caminho e na tormenta...
Ah, trevas do meu porto,
meu triste olhar absorto:
quão mal tendes por falar.
Estranha sina, pouca sorte,
- que não se oriente e conforte,
fosse eu a vida suportar!
sexta-feira, 27 de Março de 2009
quinta-feira, 6 de Novembro de 2008
Soprados versos...
Do verbo fácil, deuses soltai,
palavras que em rebanho tendes
e que em minha garganta suspendes
todo um discurso num "ai"...
Por ter algo que vos diga,
que nos sobressalte e mova,
brotando do profundo chão
imensos rios, água pródiga,
saindo livre, em torrente nova,
submergindo fel e solidão...
Ó soprado vento, vai,
que a soprada brisa fica!
Que a matéria desta língua,
- a corrente, desta boca não sai,
que o pensamento se não publica,
deixando-me a fala à míngua...
A soprada frase me falta
e o sopro quase sobressalta...
O verso, no vazio da minha mente,
perpassa como nuvem, transparente...
quinta-feira, 23 de Outubro de 2008
Pequeno Mundo
Nestas poucas pequenas páginas
pequeno Mundo se confina;
e entre quatro paredes rígidas
a um pequeno Povo se destina.
Em sua pequenez espartilhadas,
aquém dos horizontes que destroem,
suas vidas seguindo se corroem,
sobrevivendo as almas, enganadas.
Engano e pequenez já se bastaram,
que cerrando as bocas, já as calaram,
para viver de vileza e ilusão.
Sem luz bastante, com altos muros,
em sofrimento, a que estão seguros,
pequeno Povo, grande Solidão.
Língua Presa
Para falar sofre-me a alma,
por calar, me dói o coração;
impopular drama não se filma
- requer recato, ou representação.
Sofridas vidas, vistas no cinema,
seriam do quotidiano lenitivo;
nos distanciando, p'ra termos pena,
e a nossa, saldando falso positivo.
Ofegante, se me aperta o peito;
p'ra fazer cenas me falta o jeito...
e face à estupidez não há genica.
Embargada, a língua se me prende,
por tanta surdez ao grito estridente;
e embotada, o silêncio amplifica.
segunda-feira, 20 de Outubro de 2008
AQUI
Aqui, onde tudo à volta falta;
aqui. Por todos quantos se voltaram
e ficando por aqui, se desdobraram
em visões, construindo horizontes,
quando por aqui - se as viram...
Aqui: onde nada falta à volta;
aqui, os quais tantos e tão vistos foram
quando de aqui se desgarraram
e, aos baldões, embarcando p'las pontes
- quando os de ali rumorejavam...
(Rumores sombrios, daqui e dali,
nos trouxeram fios, em que me feri.
Das sombras malditas, das trevas da cobiça:
dores infinitas, sanguínea liça...)
Quando e aqui, ontem e hoje,
se viram caminhantes
- tão virgens como os de antes,
tão espantados;
aqui chegados,
onde tudo nasce;
e se antes se partiu,
hoje se volta.
Quando aqui nasce o Mundo,
a Vida irrompe;
de uma Natureza atávica
gerando o Bem mais profundo;
aqui brota a Humana Fonte,
aqui é África!
Perguntas E Respostas
Porquê nos traz a voz mais perguntas
do que respostas - por vezes tontas;
e porque é, por vezes, o silêncio
a resposta? Vem... e desmente-o!
Se é de bem viva voz que me respondes
confortos trazes, não tristezas tolas;
teus pensamentos e razão não escondes
e a alma me aqueces e consolas...
A voz que escutas, se me ouves;
a fala que me sai, Amigo meu,
do estrangulador silêncio já fugiu...
A teu portentoso peito ela retorna,
ao ninho que em teus braços se forma,
esperançada... que a canção renoves!
quinta-feira, 9 de Outubro de 2008
Aqui não é.
Aqui não é, amada minha,
"o meu berço de embalar ".
Estas ruas nada me dizem.
Nesta noite, a luz dos postes não se reflecte
em nenhum empedrado molhado.
Não há chuva sobre trilhos de eléctricos;
e aqui ninguém indaga,
sob varandas e janelas,
os sentidos do destino e do fado.
Aqui estou longe, separado;
da minha raiz, minha solidão.
Distante, estou só e apagado
no escuro, mesquinho e vão.
Aqui não é Lisboa.
sexta-feira, 19 de Setembro de 2008
batalha
hoje
vem aí
o sopro divino
da poesia
hoje
evocava os deuses,
as musas
convocava
para a festa,
para a gesta
pela grei
encontrei
numa encosta
uma fresta
na muralha
uma mortalha
por bandeira
uma verdade
bem verdadeira
que a maldade
não tem canseira
invoco as forças
- que venham lestas -
em patas de corças
- que hoje há frestas
nesta parede
que os dias nos compõe
de vileza que fede,
que o destino não dispõe
não dispõem os céus
o que o homem inventa:
torpeza que a todos tenta,
que a todos chama seus
Vinde Forças aos meus braços,
liberte-se a Vida mais pura!
segunda-feira, 15 de Setembro de 2008
Menino
Por caminhos me rastejo,
por encostas vou subindo;
seguindo, sempre seguindo
- alcançar o cume desejo.
Nesse dia a que almejo;
- lá de cima saberei -
do penhasco saltarei,
abrindo asas, sem pejo!
Vem, Amigo, - se voares,
sobre as nuvens, pelos ares,
pelo espaço, eternamente.
Perscrutando o horizonte,
velozes e sem destinos,
leves e fortes, - meninos!
segunda-feira, 7 de Julho de 2008
caçados
Despe o teu corpo
meu olhar predador
que em sonhos me entretém,
em fantasias...
Enquanto assim algo
de invisível, insuspeito,
se passa sob a minha pele,
máscara impassível,
surgem da flexão
da tua cabeça, rodando,
teus olhos - surpresa,
neles se suspendendo
a imaginária caça dos meus:
porque os trazes limpos,
já desnudados.
terça-feira, 25 de Dezembro de 2007
minutos...
Nos minutos que nos restam
nos não sobram ansiedades:
há vozes que não protestam,
e vão calando as maldades.
Muito ou pouco mal seria
se o tempo nos chegasse;
por não fazer o que devia
não ouvi quem se queixasse.
Curta ou breve seja, a demora,
que longa nos esmaga, de solidão.
Que tempo nos não sobre, ou sobra ilusão.
Que outros fiquem por terra
aprendendo porque se erra,
e que por pouco tempo se chora...
sábado, 17 de Novembro de 2007
EXPERIÊNCIA
Vinda em breve grandiloquência,
tão de súbito, mudou-me o céu:
tempos e fronteiras se mudaram,
mantendo-me da vida a aparência;
Surpreendido por tal evidência,
de súbito se abriu, o peito meu:
novas vozes, cantos me ecoaram,
alumiando memórias da vivência.
Deitada jaz por terra a fatal ciência
de quantos a ergueram estandarte;
já me cresce segura e livre, a Arte.
Erguendo nos ares o seu alto porte,
as cordas da alegria me vibrou, forte!
Eis o que me faltava, à experiência...
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